Na semana que vem chega às livrarias a tradução para o português do livro mais recente de Norman Lebrecht, “Maestros, Obras-Primas & Loucura: A Vida Secreta e a Morte Vergonhosa da Indústria da Música Clássica” (Record). O título, traduzido da edição americana, é equivocado – não é a indústria da música clássica que morreu mas, sim, segundo o autor, a indústria de gravações de clássicos. É certo que Lebrecht quer provar que não dá para pensar no mercado musical do século 20 sem concluir que a indústria dos discos foi fundamental em sua construção, alterando e moldando não apenas o repertório mas o tipo de interpretação que dele se espera. Seria possível, então, concluir que, com o fim dos CDs, acabaria o mercado também. Certo? A obra de Lebrecht está repleta de silogismos como esse, que levam a previsões catastróficas mas que, no final das contas, são mais exacerbações, com o objetivo de explorar inúmeras possibilidades de pensamento, que verdades ou previsões absolutas. Se a indústria acabou, a música gravada não parece estar chegando ao fim mas, sim, entrando em outro contexto, outra situação tecnológica. Enfim, logo vou voltar à obra no jornal e falo mais do assunto. Digo só que, colocada essa restrição, o livro é interessante, nos apresenta diversos personagens pouco conhecidos e obscuros do mundo das gravações, além de fornecer números curiosos e impressionantes. Por exemplo: sabe qual o disco mais vendido da história dos clássicos? Callas? Karajan? Três Tenores? Não, é o “Anel” de Georg Solti. Em breve, conversamos mais sobre o tema.

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Relevância

maio 21, 2008

O “Caderno 2” publicou ontem minha entrevista com o maestro Daniel Barenboim, que rege a Staatskapelle Berlim em São Paulo a partir de domingo em um mini ciclo Bruckner. No post abaixo, eu coloquei uma de suas respostas, como aperitivo. Na entrevista completa, que você acessa aqui, ele fala também da obra de Bruckner e Schoenberg, da questão Israel/Palestina e do papel que a música tem hoje na sociedade. Leiam e me digam o que vocês acham. Para mim, Barenboim é um dos caras mais interessantes do cenário musical. Vocês já viram o site dele? Vale a pena – a seção de ensaios é muito boa, com textos dele sobre os mais variados assuntos. É difícil ver um maestro que se coloque de maneira tão clara e competente a respeito do que se passa mundo afora. E acompanhar seu trabalho, de alguma maneira, é ver como a música pode sim ter um papel mais amplo na vida das pessoas, apesar da perda de relevância das últimas décadas, um dos temas que ele explora na entrevista.

Aspas

maio 19, 2008

Do maestro e pianista Daniel Barenboim, em entrevista hoje de manhã:

“É preciso entender que força não é poder, é um elemento utilizado pelo poder. Quando se está tocando uma sinfonia, força significa perda, restringe a interpretação, retira dela toda nuance. Você percebe o verdadeiro sentido do poder quando todos os instrumentos tocam juntos em uma sinfonia de Bruckner e ninguém se sobressai, todos são ouvidos, dos metais à segunda flauta. É a transparência que dá riqueza, dá poder, força. O mesmo vale para o poder político, ele também precisa surgir da transparência. Força e intensidade são coisas muito diferentes.”

Mais na edição de amanhã do “Caderno 2”. 

Diário do Rio (5)

maio 18, 2008

Após sair da sucursal do Estadão no Rio, desci a Rio Branco para fazer um de meus passeios cariocas preferidos, almoçar no Amarelinho da Cinelândia. Fico, no entanto, sempre com uma sensação incômoda ao observar a degradação da região. Ela tem tudo que se pode querer, o Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional e, mais para baixo, o Cine Odeon. Mas a falta de cuidado transforma a Cinelândia, em especial no fim-de-semana, em uma das mais perigosas regiões da cidade, com você ouvindo, do garçom do restaurante ao segurança do prédio da sucursal, que é bom tomar cuidado e, se puder, evitar fazer qualquer trecho a pé. Sigo insistindo no “erro”, mas fico também pensando como a admnistração pública tem lógicas incompreensíveis.

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Depois de Kathleen Battle e “Fidelio”, vou visitar daqui a pouco a exposição de Jocy de Oliveira no Espaço Oi Futuro, no Catete. Não sei se vou conseguir assistir também à sua nova ópera hoje à noite – precisei adiantar minha volta e parto hoje à noite do Rio, amanhã cedinho preciso estar em São Paulo para a entrevista com o maestro Daniel Barenboim, que chega à cidade com a Staatskapelle Berlim para apresentações na série da Sociedade de Cultura Artística. O próximo post, portanto, já volta a ter sotaque paulistano. Antes, me despeço da paisagem do Rio aqui mesmo no meu hotel, em Botafogo, com uma varanda que dá vista para o Cristo Redentor. É o cartão-postal mais batido e está longe de ser minha paisagem preferida da cidade. Mas, com o céu azul como fundo, e os raios esbranquiçados de sol esfumaçando o Corcovado, aqueles braços abertos são mesmo, de alguma forma incompreensível, a cara dessa terra.

Diário do Rio (2)

maio 17, 2008

A soprano norte-americana Kathlenn Battle apresentou-se hoje à noite no Municipal com  Orquestra Sinfônica Brasileira, regência de Roberto Minczuk. Na primeira parte, a sinfonia Londres, de Haydn. Na segunda, a diva. O repertório foi meio esquizofrênico. Começou com a ária “Una Voce Poco Fa”, de “O Barbeiro de Sevilha” e seguiu com “O Mio Babbino Caro”, de “Gianni Schicchi”; a orquestra tocou então “O Trenzinho do Caipira”, de Villa, de quem Battle cantou em seguida a “Melodia Sentimental”. Para completar, “Azulão”, de Jayme Ovalle, uma canção de Granados e três spirituals. Como bis, mais “Azulão”, com participação do Coro Infantil da UFRJ. Bom, e que tal foi? Concertos assim, com grandes artistas já longe de seu auge, colocam sempre, ao menos para mim, um desafio de julgamento. Pensando apenas na noite de hoje, deve-se dizer que a voz já perdeu volume, o fôlego já não é o mesmo, ela demonstra já não ter a agilidade vocal de antes e a voz descolore um pouco ao final das linhas de canto; nas árias de ópera, fica entre uma efusão exagerada de efeitos no Rossini e uma interpretação apática do Puccini; nas demais peças do repertório, a intenção se sobrepõe à técnica. A todo momento, no entanto, uma inflexão, uma construção, parecem trazer de volta ecos do timbre de outra época, da delicadeza, da clareza – e aí é como se o passado fosse um filtro pelo qual a música passa antes de chegar a nós no momento presente. Como ficamos, então? Se vocês tiverem a resposta, agradeço – não sei realmente como fugir ao “longe do auge, ainda guarda em alguns momentos aquilo que fez dela um grande expoente de sua geração”. De qualquer forma, fiquei pensando em como a carreira de Battle teria se encaminhado se não houvesse sido interrompida pelo temperamento que a afastou dos principais palcos do mundo. Essa interrupção matou sua voz que, no entanto, segue viva como uma sombra, uma lembrança do que não foi (ou foi por pouco tempo). Saí do Municipal com um quê de melancolia. Será que há mesmo motivo para isso?

Scandalize my name

maio 16, 2008

Sim, elas também fazem rir. Pesquisando sobre Kathleen Battle, me lembrei de um vídeo, que há muito eu não assistia, em que ela e Jessye Norman interpretam a divertida canção “Scandalize My Name”, de Paul Robeson. Ele está no You Tube e, agora, coloco o link aqui. Norman está impagável.

E…para que serve?

maio 14, 2008

 

Engenheiros apresentam robô capaz de reger uma orquestra.

Corrida maluca

maio 14, 2008

Recebi há alguns dias um aperitivo da programação da Folle Journée carioca deste ano, que será realizada no começo de junho. Está bastante interessante mas, antes, um pequeno histórico. A Folle Journée é um projeto de décadas, criado na França por René Martin. A proposta é simples – escolhe-se um tema, que pode ser um compositor, uma época, um estilo, etc, e realizam-se dezenas de concertos no espaço de alguns dias, ocupando diversos palcos de uma cidade. Além dos concertos em si e dos diálogos que eles propõem, a graça está também no ambiente criado, na possibilidade de ver em um mesmo dia um pianista tocando com orquestra e, mais tarde, fazendo música de câmara, por exemplo – para não falar no contato que se dá entre o público, que vai se reencontrando ao longo do dia, trocando impressões. Bom, a FJ original acontece em Nantes e já havia chegado ao Japão e Portugal até que, no ano passado, por esforço e teimosia de Helena Floresta e Teresa Pinheiro, ganhou sua primeira edição brasileira, no Rio. Em 2007, o tema foi “Harmonia dos Povos”, com foco nas escolas nacionais de composição; agora, é a vez de Beethoven, em concertos que serão realizados do dia 4 ao dia 8 de junho. A programação completa você logo encontrará no site, www.riofollejourne.com. O “aperitivo” a que tive acesso, no entanto, consegue mesmo abrir o apetite – a integral das sonatas para violoncelo, com Antonio Meneses e Menahem Pressler; os quartetos de cordas; os concertos para piano com Boris Berezovsky e regência de Lígia Amadio; sinfonias, e por aí vai. Quando tiver mais notícias, aviso.

Sentidos

maio 12, 2008

Li no site Diverdi.com, via De Ópera e Concertos, uma interessante entrevista com a mezzo-soprano Christa Ludwig. Ela fala da carreira, da ópera, do repertório de canções. O que mais me chamou atenção, no entanto, foi seu comentário sobre dois papéis que nunca interpretou, Isolda e Brünhilde. Li certa vez que Karajan tentara convencê-la a fazer a Isolda, pelo menos, mas que, depois de aceitar o papel, ela acabava voltando atrás e se recusando. Na entrevista, ela confirma: “Há papéis que gostaria de ter cantado e os três grandes maestros com quem trabalhei – Karl Böhm, Herbert Von Karajan e Leonard Bernstein – queriam que eu fizesse Isolda. Aprendi o papel, o mesmo fiz com Brünhilde. Mas, mesmo que  pudesse tê-las cantado, na última semana de ensaios, pensava na primeira récita e sentia medo.  É um papel, claro, que sempre me agradou muito em recitais mas, neste caso, precisei ser franca comigo e dizer: ‘Não, este papel não foi feito para suas cordas vocais, poderia arruinar sua voz e você teria que parar de cantar’.”

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Dentro da enorme discografia de Christa Ludwig, há um disco precioso, que tem lugar especial em minha discoteca. Trata-se de uma coletânea da EMI francesa, dois discos – no primeiro, o recital de despedida dela em Salzburgo, em 1994, com canções de Mahler, Strauss, Brahms, Schumann; no segundo, um de seus primeiros discos, gravado no final dos anos 50, com interpretações suas para papéis como Ariadne, Brünhilde, Elektra. Não são papéis que ela repetiu ao longo da carreira, ao menos não no palco. No entanto, poucas vezes o monólogo de Ariadne soou tão bonito e, por mais que a competição seja pesada, sua cena final no “Crepúsculo” pode estar facilmente entre os grandes momentos do canto wagneriano, em que pese a inexperiência do início de carreira. Sei lá, talvez essas impressões sejam fruto daquela tara que todos nós temos de ver nossos cantores preferidos em nossos papéis preferidos, às vezes contrariando toda e qualquer lógica vocal. Mas, também, fico pensando: precisa mesmo mais do que isso?

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Traição seria, porém, não falar do Mahler de Christa Ludwig. Na entrevista, ela fala sobre Bernstein. É sucinta: “Bernstein era a música”. Revi outro dia a gravação da “Canção da Terra”, um dos DVDs da caixa dedicada pela Deutsche ao Mahler do maestro americano. Há um disco só de extras – e, entre eles, ensaios da obra com LB, Ludwig e a Filarmônica de Israel. Em certo momento, os dois começam a discutir – “eu já falei que não consigo fazer nessa velocidade, não adianta”, diz ela; e Bernstein responde com uma cara marota, de quem gosta de provocar e não parece preocupado com as reclamações da colega. Ouvindo depois o concerto, a integração entre os dois é incrível. Se Bernstein era a música, Ludwig foi um dos instrumentos que soube utilizar com mais precisão. Relações artísticas como essa são raríssimas e, quando acontecem, enchem a vida de sentido.

Nilson Lombardi

maio 12, 2008

Com certo atraso, faço referência à morte do compositor Nilson Lombardi, expoente da escola nacionalista, aluno de Camargo Guarnieri. Sua obra mantinha relação estreita com a do mestre e contemplou diversos gêneros, piano-solo, canto, música de câmara, música sinfônica e canto coral. Em 2003, foi lançado um livro com suas principais obras (Editota TCM, organização de Marcia Mah) – a idéia era remasterizar um disco dos anos 70 em que Atílio Mastrogiovanni interpretava peças para piano, mas acabou evoluindo para um lançamento mais completo de sua produção. Lembro de ter escrito na época que o livro poderia facilitar o acesso à sua obra, que, com as partituras editadas, poderiam freqüentar mais as salas de concerto. Não tenho certeza de que foi bem assim. Uma pena – seria interessante se a reavaliação do nacionalismo pudesse passar, antes de mais nada, pelo contato com a obra de outros autores que não Villa-Lobos/Camargo Guarnieri/Osvaldo Lacerda. No blog Cultura e Crítica, você lê comentários de Marcelo Coelho sobre o compositor, que faleceu no início do mês de abril.