Idéias soltas

maio 27, 2008

O ponto de partida de “Maria Golovin”, ópera de Gian Carlo Menotti apresentada no fim de semana em Manaus, no Festival Amazonas de Ópera, é  perturbador. Na cegueira do personagem Donato e no ciúmes doentio que o consome, há espelhos e projeções. Quando enxergava, ele podia optar por não ver. Agora, privado de visão, não pode mais fechar os olhos. As imagens que o perturbam, no entanto, não estão ali; formas e cores que dão sentido a sons e sensações que, longe do real, são sua única ligação com a realidade. O que é esse mundo real, no entanto? Ou melhor: em que medida ele de fato existe longe da construção diária em que equilibramos verdade, mentira, sentimento, razão e ilusão?

***

Estreada em 1958, a ópera não foi um sucesso e caiu em esquecimento até que, recentemente, ganhou nova montagem da Ópera de Marselha, com Nuccia Focile e Paulo Szot como Donato e Maria, essa mulher envolta em mistério, alvo de sua paixão – foi essa a montagem que subiu à cena em Manaus. É de se pensar: o que desagradou tanto ao público da época? Nos anos 50, da vanguarda em plena auto-descoberta, a música de Menotti era politicamente incorreta ao eleger como referência Puccini. Fico em dúvida se a história sombria também colaborou com o esquecimento. É, enfim, cinco décadas depois, o que ela tem de mais interessante.

***

O libreto do próprio compositor é rico em imagens. Donato, jovem que perdeu a visão durante a guerra, vive com a mãe e a empregada da família em uma casa de campo; ali chega Maria Golovin com seu filho: esposa de um prisioneiro político, ela aluga um dos quartos da casa. Os dois começam uma história de amor. Há a caracterização de uma sociedade destroçada pela guerra, mas ela é acessória. Os momentos mais ricos são os duetos de Donato e Maria. São eles que, ao longo da trama, nos levam do surgimento da paixão à morte, da densidade à loucura.

***

Em determinado momento, um prisioneiro político confronta Donato e sua dor. Enquanto o cego sofre de ciúmes, perde a razão perante a dúvida sobre o amor de Maria, ele vive fugindo, perseguido pela polícia e pela lembrança da mulher e filhos, mortos na sua frente. Qual sofrimento é mais autêntico? A intensidade do sofrimento não pode ser medida longe de seus efeitos. É o espaço que o sofrimento ocupa na mente que define seu tamanho, sua proporção. Donato anseia pela mentira de Maria, só assim terá certeza de que ela não o ama – e é isso que lhe dará a liberdade. Mas a mentira, quando vem, o aproxima ainda mais do fruto de seu desejo; e ele sucumbe perante essa mulher misteriosa. Maria é inocente? No jogo de amor dos dois, não há espaço para a culpa. Há, sim, a noção de certo e errado, que se insinua a todo instante; mas o que sobra para nós é a certeza de que essa oposição não existe. Não, ao menos, de maneira absoluta.

***

Donato mata Maria. Não a mata, a mãe o guia no momento do tiro e desvia o filho do alvo, sem que ele perceba. Mas Donato conhece assim o fim de Maria. A morte é simbólica, é o fim para uma relação impossível. Mas o que torna a relação dos dois impossível? Maria o trai? Não sabemos. Ele a trai ao duvidar de todos os seus passos? No seu silêncio, Maria o afasta? O que move esses dois personagens? A relação que constróem tem a medida do significado que o amor tem para cada um. A história que vivem não existe senão como projeção de ambições e desejos individuais. O contato físico, o sexo, é o único momento em que esses dois amores se encontram. Mas o encontro atrapalha, impede que cada um viva seu amor plenamente. Menotti disse que, na tentativa de criar uma história sobre o amor, criou uma ópera sobre ciúmes. No seu texto, porém, os dois são uma só coisa.  

***

No fim das contas, o que me pega é a cegueira de Donato. “Quando enxergava, ele podia optar por não ver. Agora, privado de visão, não pode mais fechar os olhos.” Está, enfim, abandonado a seus pensamentos, aos rumores de sua mente. São eles que nos guiam mas também nos afastam do caminho, um caminho ideal que traçamos, ou deixamos que tracem, para nós. De certa forma, encontrar o caminho é abrir mão dele. Encontrar a coerência, é abrir mão dela. O ciúmes, o amor, o ódio – eles nos confundem porque falam um idioma que não entendemos. Falam de sensações, falam de incongruências, incertezas. Falam alto, abafam a razão. Materializam o caos. A sanidade talvez esteja em encontrar nele o sentido. Ou ao menos a ilusão de que ele existe.