Diário do Rio (4)

maio 18, 2008

Ontem à noite estive no Municipal para assistir “Fidelio”, de Beethoven. Muito já se disse sobre como o compositor sentia-se desconfortável no universo operístico, o que levaria a um resultado desigual e meio desconjuntado em “Fidelio”. Eu mesmo já repeti isso mas, ontem, fiquei menos com essa impressão. O que se deve talvez ao ritmo do espectáculo dirigido por Alberto Renault e regido por Roberto Minczuk. A concepção cênica é muito bonita, abstrata mas repleta de significados, com poucos, mas ricos, elementos, trabalhando com a oposição entre o preto e o vermelho. É inteligente, de bom gosto, e dá fluência à cena – o mesmo vale para a regência de Minczuk. O problema? As vozes. Não todas mas, infelizmente, as mais importantes. Janette Dornellas é uma Leonore/Fidelio apagada, os efeitos, quando a voz cai para o grave, são um pouco desagradáveis e problemas de emissão a tornam inaudível em momentos fundamentais da partitura (no que a orquestra colabora um pouco, é verdade). O Florestan de John Pierce, que foi Tristão na produção de 2003 do Municipal do Rio, sai-se melhor – o timbre escuro se presta bem à cena de abertura do segundo ato mas, no final, ele escorrega ao simular os delírios do personagem, com a voz escapando por tudo quanto é canto, diluindo os efeitos. Mas o elenco trouxe também boas surpresas – o jovem tenor paraense Attala Ayan (Jaquino) merece ter a trajetória acompanhada; Carol MacDavitt foi uma Marzelline encantadora; Sebastião Teixeira saiu-se bem como Pizarro; o grande destaque, cênica e vocalmente, foi o baixo argentino Hernan Iturralde como Rocco, uma voz que corre solta, agradável de ouvir, ao mesmo tempo em que recria a dureza do personagem.

O apelido acima foi dado pela equipe da Sinfônica Brasileira à soprano Kathleen Battle, conhecida pelo temperamento difícil. Comigo, ela foi uma simpatia. A diva, no entanto, aparece nos entornos. Foram dias de negociação para acertar a entrevista – além das mudanças de horário, logo de cara precisei mandar uma série de matérias minhas para que ela avaliasse meu trabalho e decidisse se falaria ou não comigo. Não sei se o fato do pacote incluir entrevistas com amigas delas, como Jessye Norman, ajudou, mas, enfim, o fato é que ontem ela mandou avisar que eu havia passado no teste. Foi marcada então uma conversa para hoje de manhã. Estamos os dois no Rio, mas ela preferiu fazer a entrevista por telefone. Dez minutos, pontualmente às dez da manhã. Se contarmos os intervalos para ela beber água, vai, oito minutos de bate-papo. Pois bem, o que se pergunta em oito minutos de entrevista, já de antemão sabendo que ela não responde questões sobre o “suposto” temperamento difícil ou o veto a seu nome em teatros como o Metropolitan? O repórter sai pela tangente, pergunta sobre o mundo da ópera, a exigência dos contratos, etc; e ela também adota a “saída pela direita”, diz que “é difícil, mas é preciso encontrar sempre tempo para voltar aos estudos, etc”. Bom, falamos também da diversidade de repertório na era da especialização, nos equívocos que ela vê na formação dos cantores líricos, na tradição de intérpretes dos spirituals, na mistura de influências e como é desafio do cantor reuni-las por meio do filtro de sua própria voz e musicalidade. Vou deixar os detalhes para a matéria do “Caderno 2”, que deve ser publicada no começo da semana. Hoje à noite tem “Fidelio”.

Diário do Rio (2)

maio 17, 2008

A soprano norte-americana Kathlenn Battle apresentou-se hoje à noite no Municipal com  Orquestra Sinfônica Brasileira, regência de Roberto Minczuk. Na primeira parte, a sinfonia Londres, de Haydn. Na segunda, a diva. O repertório foi meio esquizofrênico. Começou com a ária “Una Voce Poco Fa”, de “O Barbeiro de Sevilha” e seguiu com “O Mio Babbino Caro”, de “Gianni Schicchi”; a orquestra tocou então “O Trenzinho do Caipira”, de Villa, de quem Battle cantou em seguida a “Melodia Sentimental”. Para completar, “Azulão”, de Jayme Ovalle, uma canção de Granados e três spirituals. Como bis, mais “Azulão”, com participação do Coro Infantil da UFRJ. Bom, e que tal foi? Concertos assim, com grandes artistas já longe de seu auge, colocam sempre, ao menos para mim, um desafio de julgamento. Pensando apenas na noite de hoje, deve-se dizer que a voz já perdeu volume, o fôlego já não é o mesmo, ela demonstra já não ter a agilidade vocal de antes e a voz descolore um pouco ao final das linhas de canto; nas árias de ópera, fica entre uma efusão exagerada de efeitos no Rossini e uma interpretação apática do Puccini; nas demais peças do repertório, a intenção se sobrepõe à técnica. A todo momento, no entanto, uma inflexão, uma construção, parecem trazer de volta ecos do timbre de outra época, da delicadeza, da clareza – e aí é como se o passado fosse um filtro pelo qual a música passa antes de chegar a nós no momento presente. Como ficamos, então? Se vocês tiverem a resposta, agradeço – não sei realmente como fugir ao “longe do auge, ainda guarda em alguns momentos aquilo que fez dela um grande expoente de sua geração”. De qualquer forma, fiquei pensando em como a carreira de Battle teria se encaminhado se não houvesse sido interrompida pelo temperamento que a afastou dos principais palcos do mundo. Essa interrupção matou sua voz que, no entanto, segue viva como uma sombra, uma lembrança do que não foi (ou foi por pouco tempo). Saí do Municipal com um quê de melancolia. Será que há mesmo motivo para isso?

Diário do Rio (1)

maio 15, 2008

Começo meu diário do Rio ainda em São Paulo, na redação do jornal tentando adiantar ao máximo as coisas antes de, amanhã, sair em viagem. Serão três dias de programação intensa – amanhã, tem a miss simpatia, Kathleen Battle (mais para frente, conto o drama da tentativa de entrevistá-la) com Sinfônica Brasileira; no sábado, a primeira ópera da gestão Carla Camurati/Roberto Minczuk no Municipal, “Fidelio”, de Beethoven; e, no domingo, visita à exposição/instalação que faz retrospectiva da obra de Jocy de Oliveira, que estréia também sua nova ópera. O plano original incluía também a apresentação de “Um Castelo à Beira do Mar”, parte do ciclo Richard Strauss da Sala Cecília Meireles. Infelizmente, os horários das apresentações bateram. Uma pena, de verdade. Bom, esses fins de semana musicais no Rio vira e mexe entram na minha agenda. Não dá, claro, para chegar a conclusões muito precisas sobre a vida musical da cidade a partir deles – mesmo que a gente acompanhe diversas apresentações, será sempre um recorte, que oferece possibilidade apenas para julgamentos pontuais. Mas, entre um concerto e outro, uma conversa e outra, vou mantendo vocês atualizados. No iPod, como trilha sonora, nada de Kathleen Battle, Beethoven ou Jocy de Oliveira mas, sim, canções de Schubert com Fischer-Dieskau, Christian Gerhaher e, em dois registros preciosos, Schumann com Aksel Schiotz, Charles Panzéra e… Alfred Cortot (isso mesmo, a lenda do piano, mestre de grandes mestres, gravou o Dichterliebe nos anos 30 e havia perdido por aí o registro). O pacote foi um presente inesperado que recebi hoje pela manhã do Isaac, de quem falei lá embaixo. Mas essa é uma outra história, que conto mais tarde. Agora, de volta ao trabalho.