No começo da semana esteve em São Paulo o barítono alemão Mathias Goerne. Com a Sinfônica de Bamberg, interpretou canções do ciclo “Des Knaben Wunderhorn”, de Mahler. Já é forte candidato à lista dos concertos do ano. A voz de Goerne escureceu um pouco e, com ela, o cantor também mudou, parece mais maduro, cuidadoso com as palavras. O timbre é lindo, delicado mesmo nos recantos mais graves; a técnica é impecável; e o mesmo vale para a interpretação, dramática no ponto certo, sem exageros. Parece que tudo o que ele canta, todos os efeitos, os contrastes, saem de dentro da música. A mesma sensação eu tive ouvindo o seu novo disco, Sensucht, o primeiro de uma série de doze dedicada a Schubert, com Elisabeth Leonskaja ao piano. Seu “Urlicht” é inesquecível.

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Antes do concerto de segunda-feira, nos corredores da Sala São Paulo, conversei com o Isaac, que conhece cantores e canções como poucos. Ele me falou de um barítono que eu não conhecia, o alemão Christian Gerhaher. Fui atrás e ouvi um disco dele cantando Schubert, lançamento da Sony. A voz clara se presta bem às canções do compositor e é um contraponto ao trabalho recente de Goerne. As articulações são claras, precisas, cada nota está no lugar certo e, ao mesmo tempo, é como se corressem soltas, livres, preenchendo o texto e virando nossa alma do avesso. Li recentemente que as canções de Schubert nos levam necessariamente ao silêncio, àquele canto da alma em que somos sós e precisamos lidar com os dilemas da nossa existência. Estou adorando a viagem.

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Em especial nas notas mais altas, as passagens e articulações de Gerhaher e de Goerne lembram demais o mestre Dietrich Fischer-Dieskau. Ele criou um padrão de técnica e interpretação que se fazem presentes nas gerações seguintes – o que não exclui, de jeito nenhum, a voz própria de cantores como Goerne e Gerhaher, mas dá a pista da importância de seu trabalho na divulgação do lied. Lance de sorte, encontrei um “Wintereisse” gravado por ele no início dos anos 50. Fischer-Dieskau fez ao todo dez gravações comerciais do ciclo – e seu catálogo oficial indica ainda outros 24 registros, feitos por rádios e teatros ao redor do mundo. Esta foi a sua segunda gravação. E você ouve de boca aberta, todo o tempo – aos 27 anos, é impressionante a riqueza de coloridos que ele já extrai da voz. Deve ser interessante ouvir suas dez gravações em conjunto – imagino que ofereçam um olhar dos mais ricos sobre a evolução da voz e o refinamento de sua interpretação.

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Acabei também cedendo e comprando um outro disco, com o barítono Thomas Quasthoff cantando Strauss. Em especial em “Zueignung” e “Morgen”, ele explica com sons o que foi o fim de século 19 e início do século 20, com uma mistura de delicadeza e solidez que nos lembra claramente a diferença entre força e intensidade. Na saída da Sala São Paulo, na terça, o jornalista e cantor Leandro Valverdes, da revista Concerto, brincava que é difícil competir com as estrelas que têm aparecido por aqui (Robert Holl, Thomas Hampson, Goerne…). Ele também chamou atenção para um outro fato – onde estão os tenores? Outro dia ouvi Jonas Kauffmann cantando Strauss, CD da Harmonia Mundi. O disco é muito bom, seu timbre merece atenção. Mas o fato é que, enquanto tenores vão e vem, a consistência da geração atual parece estar mesmo nas vozes mais graves.

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Cultura Artística, Mozarteum, Osesp… quem vai trazer Quasthoff ao Brasil?