Fetiche coletivo

setembro 2, 2008

A Sinfônica do Estado de São Paulo apresentou na semana passada Salomé, de Richard Strauss. A qualidade do elenco reunido, assim como a possibilidade de apresentar obra tão especial e complexa, é evidência do ponto a que chegou o prestígio da orquestra. O resultado final, no entanto, não foi bom. A regência de John Neschling, fluente e com ritmo dramático, conseguiu o feito de encobrir a voz dos solistas, tornando a soprano Susan Anthony inaudível e dificultando a audição mesmo de “canhões” como Thomas Moser e Alan Titus. Até aí, tudo bem. Essas coisas acontecem. Não se pode esperar que, em uma temporada de 48 concertos por ano, todos saiam perfeitos. Música ao vivo é assim – e um concerto ruim não desmerece o trabalho de toda uma orquestra e mesmo de seu regente, que já ofereceu grandes leituras à sua frente.
***
Assisti ontem à apresentação, mesmo dia em que o Estadão publicava a crítica de Lauro Machado Coelho sobre a ópera. O que o Lauro diz, basicamente, é o que eu repeti, sem a mesma elegância, acima. Mas fui abordado diversas vezes na sala por pessoas que diziam: “Lauro está maluco, está ranzinza, estava de mau-humor”. A mesma ladainha se repetiu em e-mails encaminhados à redação, alguns com delirantes e divertidas teorias da conspiração sugerindo planos diabólicos para derrubar o maestro Neschling. O Lauro Machado Coelho nunca precisou de defesa de ninguém – aliás, sua trajetória como crítico e pesquisador excluem qualquer necessidade de justificativas. Mas, à revelia dele, eu resolvi rascunhar algumas linhas.
***
Algumas coisinhas…. Os responsáveis por difundir a teoria de uma suposta articulação para derrubar o maestro Neschling parecem esquecer de um detalhe importante – ELE mesmo já afirmou que QUER sair da orquestra assim que seu contrato acabar. Mais: se uma crítica ruim for suficiente para derrubar um maestro, então algo está errado. E nem é esse o caso – governadores e secretários de Cultura já tentaram antes e não conseguiram. Entre os e-mails recebidos, um é particularmente especial: o cara diz que, tudo bem, a orquestra estava mesmo alta mas, enfim, o crítico deve, nesses casos, sentar-se mais perto do palco para não sofrer com o problema… (????!!!!) De onde vem esse fetiche coletivo que transforma em veneno qualquer comentário acerca do maestro John Neschling. O que ele fez com a Osesp é indiscutível. Agora, isso quer dizer que ele não erra?
***
A atividade crítica é fundamental. Sem querer esgotar o seu significado, é justo ao menos dizer que ela se propõe a manter o diálogo entre a sociedade e a atividade artística por meio do especialista. Para que isso aconteça, é preciso que o crítico, além de todo o conhecimento, saiba transmitir em seu texto uma linha clara de argumentação que permita inclusive a relativização, por parte do leitor, de suas idéias. O debate, então, pode surgir – e isso é fundamental em uma sociedade livre. Mas sugerir que, se o crítico discorda de você, então tem interesses escusos é descuidar demais do nível da conversa. O Lauro jamais nos acompanharia até aqui embaixo. Mas eu não me incomodo, não. Cartas à redação.