O Caso Osesp

junho 27, 2008

Entre boatos, fatos e versões, que não são poucas, me arrisco a algumas idéias a respeito do Caso Osesp, ou melhor, do novo “Caso Osesp”, criado com a decisão do maestro John Neschling de não renovar seu contrato, que se encerra em 2010. Fico à espera da opinião de vocês.

Há duas semanas, o maestro John Neschling foi à imprensa, primeiramente às colunas sociais e, mais tarde, aos jornalistas especializados da área (ao Estadão, ele recusou todos os pedidos de entrevistas) dizer que não renovaria seu contrato de diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Disse estar cansado dos boatos de que é vítima e das pressões políticas que vem sofrendo, fazendo alusão aos desentendimentos com o secretário de Estado da Cultura João Sayad e o governador José Serra. A “briga” se deu desde o início da gestão, com tentativa de redução do orçamento da Osesp por parte do governo; a presença constante do governador a concertos de Roberto Minczuk no Festival de Campos do Jordão, apesar de nunca ter comparecido a uma apresentação da temporada da Osesp; a gravação feita durante um ensaio da orquestra em que Neschling chamava Serra de “criança mimada” e afirmava não ter medo de suas ingerências; e os boatos de que o governo faria pressão para que seu contrato não fosse renovado. Segundo o estatuto da Osesp, o contrato do diretor artístico poderia agora ser renovado em mais um ano. Com as declarações de Neschling, a possibilidade se desfaz. E, em um ano e meio, a Osesp terá novo diretor.

***

Não cabe discussão sobre o nível artístico alcançado pela Osesp sob a direção de Neschling. Não se trata apenas da nova sala, da série regular de concertos – o que, por si só, já seria um enorme feito -, mas, principalmente, da qualidade alcançada, da ousadia do repertório, amplo, do nível dos solistas e maestros convidados. Cada um de nós tem na mente a lembrança daquele concerto especial, daquela noite memorável na Sala São Paulo; da mesma forma, lembramos também dos deslizes, de algumas decepções – ou seja, o normal que se pode esperar de uma temporada regular de concertos, que, depois de muito tempo, a Sinfônica do Estado voltou a ter. A Osesp conseguiu também ampliar seu campo de atuação, criando uma editora de música brasileira e uma academia de música. Fato também é que a gestão Neschling foi marcada por inúmeras polêmicas. E nem sempre houve respostas precisas a elas. Nunca se provou convincentemente, por exemplo, que não houve irregularidades na seleção dos candidatos do Concurso Internacional de Piano de Villa-Lobos; a relação de autoridade com os músicos esbarrou no autoritarismo em ocasiões como a demissão sumária dos representantes da orquestra; as declarações pouco lisonjeiras com relação a outros teatros e orquestras foram sempre elemento de desagregação em um universo que ganharia muito com a união de forças de artistas e instituições, etc…

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A mistura de arte e política é complexa, antiga e, às vezes, irresponsável. Mas existe. Neschling tem reclamado do jogo político do qual está sendo vítima. Não custa relembrar, no entanto, que ele mesmo participou ativamente deste jogo durante muito tempo, saindo vencedor – e que soa um pouco infantil querer sair de campo ofendido quando o placar se inverte. A cada suspeita de irregularidade, grupos de intelectuais, artistas e políticos se articulavam em torno do maestro, defendendo junto ao governo sua permanência à frente do grupo. A própria existência da orquestra se deu por articulações entre líderes do governo e da Fundação Padre Anchieta, já que durante anos a orquestra precisou da fundação para ter acesso a seu orçamento – e das vistas grossas do Ministério Público para a situação irregular dos músicos, funcionários estáveis com contratos temporários de trabalho. Vale lembrar também que a escolha do conselho da Fundação Osesp, da qual o maestro participou, inclui a nata da liderança do PSDB e de personalidades do mundo empresarial e cultural ligados ao partido. Mais do que isso: em todo o trabalho de marketing da orquestra, houve sempre o cuidado de se associar o projeto Osesp à figura do maestro. Em outras palavras, sem Neschling, não haveria Osesp. Se a equação evidencia a sua importância na reestruturação da orquestra, por outro enfraquece a instituição em que o grupo se tornou. 

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Essa noção se mantém nas entrevistas que Neschling deu recentemente, nas quais afirma “temer” pelo destino da Osesp pós-2010. Não ficou claro qual exatamente é o seu medo – e se há algum motivo para ele além, claro, da “mágoa” que o maestro afirma sentir. Por outro lado, há uma displiscência na maneira como se pronuncia o secretário João Sayad ao falar de sua substituição – não se trata de tarefa banal encontrar um novo maestro, há muitos elementos a serem considerados. Mas minha pergunta é outra. Qual é exatamente o papel do governo nesse processo? O que diz o estatuto da fundação Osesp sobre isso? Quem escolhe o novo maestro? Quem participa da escolha? Quando ela deve ser anunciada? O silêncio da fundação, nesse sentido, é ensurdecedor e dá a sensação de que patinamos cambaleantes, sem saber exatamente para onde. Se a instituição Osesp é fraca a ponto de sucumbir à troca de comando, então há algo de muito equivocado na sua gênese. Deveríamos estar pensando, com a troca de maestros, na possibilidade de novos horizontes artísticos e não no fim do projeto Osesp. Nunca houve uma orquestra com tamanho grau de organização e estruturação formal no Brasil e é justo, por isso mesmo, que seja tudo novo, que aprendamos ao longo do caminho. Para além das vaidades e egos que povoam tanto a política como o mundo artístico, no entanto, a lisura, a clareza e a abertura na condução do processo de transição de comando podem servir de exemplo de maturidade – ou, na pior das hipóteses, da busca por ela. Pior do que ver o projeto Osesp afundar seria chegar à conclusão, caso isso aconteça, de que realmente não há espaço para projetos assim no País; de que tudo não passou mesmo de um sonho.

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2 Respostas to “O Caso Osesp”

  1. Mauricio said

    Me desculpe, mas infelizmente em nosso pais a cultura não é tratada com seriedade. Existem inúmeros exemplos que podemos colocar para expressar isso. Será que o Villa imaginou que o seu projeto nas escolas seria exterminado quando encheu um estádio de Futebol? Ou um exemplo bem recente. Se tentam (com um grande risco de que isso viesse realmente a acontecer) acabar com um aporte importante de verbas para o Sesc, que tem muito mais anos que a Osesp e está em todos os estado brasileiros, o que dirá de uma orquestra localizada em São Paulo que depende principalmente de verbas publicas.

    A Grande importância do Maestro Neschling a frente da orquestra é em minha opinião, principalmente, a disposição que ele tem para a confrontação. Justamente o que mais se critica nele, o seu genio difícil, seu temperamento explosivo, é que conseguiram manter um orçamento digno para a orquestra. Tivemos recentemente um caso muito sério e que preocupou a todos no Festival de Ópera de Manaus.

    Não acredito que a questão seja se a orquestra sobrevive a saída do Neschling, mas se o governo permitirá a sua sobrevivência. A secretária diz que não existe ingerência sobre a Osesp, mas não quer que gastos sejam feitos com a Academia, e o pior de tudo, quando o secretário vai a imprensa para justificar essa posição o faz com informações equivocadas. Se já estão querendo acabar com a Academia agora…. Se já estão querendo acabar com as viagens internacionais agora, o que farão quando não houver alguém que não tenha preocupação em bater de frente com esses políticos.

    Andei muito preocupado com essa história e tentei encontrar um pouco de informação a respeito do contrato do governo com a Fundação. Pelo que soube (e não tenho certeza absoluta a esse respeito) Não apenas o contrato do Maestro vai até 2010, mas de todo o conselho e da própria Fundação com o Governo. O que significa dizer que os conselheiros que estão atualmente poderão sair em 2010. O que tb. significa dizer que se o Governo quiser poderá firmar contrato com outra instituição que não seja a Fundação por um orçamento que achar melhor.

    Até onde eu sei o Orçamento que a Secretaria repassa para a orquestra é de mais ou menos R$ 48 milhões. Não tenho idéia de quanto é o orçamento total da secretaria, mas desconfio que não seria nada mal que ela conseguisse de volta uma boa parte para gastar em outros projetos. Pergunto uma coisa. Quem foi que negociou os R$ 48 milhões com a secretaria? Foi o conselho? Foi o presidente Fernando Henrique? Mais uma vez posso estar enganado, mas acredito que o Maestro Neschling foi quem passou a informação do valor que seria necessário para manter os projetos da orquestra. Alguém imagina que quem vai sair em 2010 vai se preocupar com o valor que o contrato terá na renovação? Eu duvido muito. Ninguém quer arrumar problemas se não vai ter mais relação com o assunto.

    Quem será colocado no lugar do maestro? Ninguém se pronuncia a respeito. Nomes internacionais importantes, sinceramente estão um pouco distantes da realidade brasileira, principalmente depois de vermos o escarcéu que se faz com o salário do atual regente.

    Eu estou muito preocupado com essa situação João. É claro que o maestro deveria sair um dia, mas isso não poderia ocorrer como está ocorrendo agora, por brigas políticas. Deveria ser feito com a concordância de todos, num processo muito mais tranqüilo onde um novo regente já fosse escolhido e orientado sobre sua atuação, não só no comando da orquestra, mas principalmente na proteção da mesma.

    Ontem eu vi o concerto dos alunos da Academia. Uma beleza que está formando jovens para tocar em qualquer parte do mundo, e isto pela secretaria é uma das primeiras coisas a fechar as portas. Temo muito pelo futuro de todo o projeto.

  2. Cambuinha said

    Assisti hoje à “Carmen Burana”. A OSESP vale cada centavo. Parabéns pela exposição do problema. Espero que inicie-se um debato público e que os protagonistas dêem a cara a tapa.

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