Ariadne, amor e mundo real

junho 23, 2008

No disco dos anos 70 agora reeditado, Anna Tomowa-Sintow canta as árias de Desdêmona, Leonora, Tatiana, Ariadne. É acompanhada por Kurt Masur e a Gewandhaus de Leipzig. O álbum fala de amor. A dúvida de Tatiana perante o papel em branco na “Cena da Carta”, a certeza e resignação de Desdêmona próxima ao fim, o apelo aos céus de Leonora em “A Força do Destino”, a morte e a salvação no olhar de Ariadne. Que amor é esse sobre o qual nos fala a ópera? É a potencialização de toda a dúvida que, na vida real, a mente releva a um canto, na esperança do encantamento possível.

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Em “Ein schönes war”, a voz de Tomowa-Sintow flutua longamente sobre a orquestra criada por  Strauss para “Ariadne auf Naxos”. Em “Es gibt ein reich”, há uma resignação solene na descrição da terra dos mortos, na esperança do herói que colocará a mão em seu coração, a libertando de toda a dor e miséria. É um canto que enfeitiça, sempre constante, sem a angústia controlada de Leontyne Price ou Jessye Norman, duas entre muitas referências. A emoção não se prende, sai da música aos nossos ouvidos, calma, tranqüila… e perturbadora.

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Lembrei de Jessye Norman a propósito de um documentário, dirigido pelo austríaco André Heller, lançado agora em DVD (Decca). No Marrocos, a soprano fala com a câmera, relembra a tensão racial da América em que nasceu, a relação com o canto, fala de religião, de medos, da fama de geniosa, da escolha de repertório, da admiração pela avó, do início da carreira, etc.  Para cada bloco de depoimentos, um trecho musical. Ela, aqui, canta o Strauss das Quatro Últimas Canções, “Beim Schlafegen”. A voz emergindo em direção ao céu após o interlúdio camerístico, quase silencioso, da orquestra continua sendo, para mim, um dos momentos mais incríveis da música gravada.

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De volta a Ariadne, de volta à realidade. O Festival Amazonas de Ópera, em Manaus, apresentou em maio a montagem de Caetano Villela para a ópera. Era a primeira co-produção entre dois teatros, o Amazonas e o Municipal de São Paulo. Não vai mais acontecer. Em setembro, São Paulo apresenta nova montagem, assinada por André Heller-Lopes. Já se trocou muita acusação, muita fofoca. O fato é que a burocracia reclamou mais uma vez para si o papel de protagonista na ópera brasileira. Ficou impossível, por conta da frágil condição institucional de nossos teatros, fechar um contrato de parceria. Manaus é um pólo de produção de relevância internacional, não há mais o que discutir – a não ser o fato de que se faz realmente sentido um projeto como esse ficar se equilibrando na falta de apoio e de condições tranquilas de trabalho. A falha, se serve para alguma coisa, é para mostrar como a estrutura dos teatros implode o desejo de se construir um novo futuro.  Uma grande chance se perdeu.

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Agora cedo, Strauss me levou a Mahler.  Amanhã, parto para Brasília para assistir os “Lieder eines fahrenden Gesellen”, com Homero Velho, e “A Canção da Terra”, com Denise de Freitas e Martin Mühle.  Sinfônica do Teatro Nacional, regência de Ira Levin. Há algo de bom em se poder acompanhar nossos cantores se aventurando por repertório tão especial. Conto mais.

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2 Respostas to “Ariadne, amor e mundo real”

  1. pedrita said

    deve ser muito bonito esse disco dos anos 70. boa viagem. beijos, pedrita

  2. andre heller said

    Somos fàs da mesma gravaçào…Tomowa-Sintow é a única (ou uma das poucas) que não respira entre “schönes” e “war”.
    Você conhece a carta do hofmannsthal pro Strauss? Fala sobre o conceito de “transformácão”, sobre a estéitca que ele bucava…e que, dizia, apenas a musica podia traduzir.
    abs

    andre

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