Quebra-cabeça musical

junho 18, 2008

Duas semanas já se passaram do fim da Folle Journée, maratona de 48 concertos dedicados a Beethoven (eu vi 26), e a música do compositor não sai da minha cabeça. Fiquei uns dias às voltas com Antonio Meneses, Menahem Pressler e as sonatas para violoncelo, cai então nas sonatas para piano com Nelson Freire e emendei com o Concerto nº 5 para Piano com Heléne Grimaud e Vladimir Jurowski. Não entro no mérito da qualidade das gravações – são todas incríveis. Fico pensando no caráter de Beethoven, na figura do herói que se constrói na tentativa de revisitar o passado para iluminar com música uma nova época, que se desenha não nas grandes movimentações mas, sim, na sensibilidade de um artista que sente mesmo sem compreender a mudança do mundo. Vem talvez daí uma certeza na música de Beethoven, mas uma certeza sem arrogância, sem preconceitos, sem exclusão. Toda a dúvida se dissipa no diálogo do piano com a orquestra mas, ao mesmo tempo, ela está ali, presente, como símbolo do desejo de transformação.

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Beethoven ainda está na mente quando chego a Belo Horizonte, no fim de semana, para assistir Pelléas e Mélisande. E então encontro Debussy. Procurar nessa história de amor, traição e ciúmes uma seqüência lógica de eventos é inútil. O simbolismo da peça de Maeterlinck e o impressionismo do compositor francês se articulam na criação de atmosferas e não de narrativas, o que vemos são os personagens nas arestas da ação, a descrição desconexa de sentimentos, sensações, pensamentos. A música ali é um universo de sonhos. Estamos, parece, largados, imóveis, a uma maré de possibilidades que não se concretizam, onde não há início, meio, fim. Mas, não. A certeza, aqui, vem do caos.

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Ontem estive no Municipal acompanhando o ensaio de “Madama Butterfly”, que estréia no fim de semana. E a ópera italiana me tomou de assalto. As linhas de canto, a emoção da música, “que te pega pelo estômago”, como lembrou o maestro Jamil Maluf. Fiquei encantado com a produção. Os cenários de Tomie Othake são de uma delicadeza, de uma simplicidade perturbadoras. Brincam com a luz na construção de um jogo de cores muito bonito. Não há exageros. O diretor Jorge Takla joga nos intérpretes toda a ação, tudo que há para ser narrado. A música ganha caráter quase impressionista. Eiko Senda acerta cada nota, cada palavra, o papel é dela, ela é Butterfly. O momento da espera, quando, no canto do palco, ela, Suzuki e o menino esperam pela chegada do navio é de arrepiar. A sutileza do gestual oriental se combina com a emoção derramada italiana e parecem feitas uma para a outra. Não faz, assim, o menor sentido. E isso é incrível.

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O maestro Marcelo de Jesus colocou em seu blog o link para download das gravações de todos os espetáculos deste ano do Festival Amazonas de Ópera. Ontem à noite o “Requiem” de Verdi já foi para meu iPod. Nuccia Foccile, Eugene Grunewald, Michael Hendrick, Lucas Dubevec-Meyer. As vozes são desiguais. Mas a regência de Luiz Fernando Malheiro é dramática e comovente. Verdi fala de morte para pensar em Deus e acaba refletindo sobre a vida. O Lacrymosa só é interrompido por uma coletânea com “melhores momentos” de Thomas Hampson. A ópera italina me fez ouvir primeiro árias da “Traviata” e do “Falstaff”, mas acabei na ária do Tannhäuser, de Wagner. No final das contas, o que me pega é mesmo a voz. As vozes. E o dia está apenas começando.

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2 Respostas to “Quebra-cabeça musical”

  1. pedrita said

    festival de beethoven, meneses, freire, que combinação maravilhosa. tenho muita vontade de ver uma montagem de Pelléas e Mélisande. eu tb falei de música no meu blog. beijos, pedrita

  2. Laura Morena said

    Só um pequeno adendo…

    Vc citou Debussy e Nelson Freire, e eu nao posso deixar de citar a estonteante apresentação do pianista agora em maio na Cultura Artistica, tocando os 12 prelúdios do 1 caderno de Debussy…
    Foi um Debussy que eu ainda nao havia imaginado.
    O interessante é que Nelson faz do denso, algo doce. E o que já é doce, ele equilibra com um toque amargo….indescritível.

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