Conversa com deus

junho 11, 2008

“Ó, meu Pai: ancião, solitário, decepcionado Pai: traído e rejeitado Senhor do Universo: nervosa, enrugada Antiga Majestade: eu quero rezar. quero dizer meu Kaddish. (…) Com Amém em meus lábios, eu me aproximo de sua presença, Pai. Não com medo, mas com uma certa fúria respeitosa. Você não reconhece minha voz? Eu sou parte do Homem que Você criou para sugerir sua imortalidade. Você certamente se lembra, Pai? – a parte que recusa a morte, que insiste em Você, diviniza Sua voz, adivinha Sua graça. E você sempre ouviu minha voz, e sempre me respondeu com um arco-íris, uma praga, alguma coisa. Mas agora eu vejo nada. Desta vez você não me mostra nada. Você está me ouvindo, Pai? Você sabe quem sou eu: Sua imagem, Seu teimoso reflexo, que o Homem destruiu, extinguiu, baniu. E agora ele corre livre – livre para jogar com seu recém-descoberto fogo, ávido pela morte, a morte voluptuosa, completa e final. Deus, eu lhe peço que preste contas! Você deixou isso acontecer, Senhor! Você pede por fé, onde está a Sua? (…) ‘Olharei para cima, para que eu me lembre de meu duradouro acordo’ – Seu acordo! Sua barganha com o Homem! Deus de estanho! Sua barganha é de estanho! Ela se desfaz em minhas mãos! Onde está a fé agora? A Sua ou a minha?”

***

A “Sinfonia nº 3” de Leonard Bernstein sempre me despertou interesse. Kaddish, anota a partitura, uma espécie de oração de despedida da tradição judaica, um réquiem. O coro entoa a oração tradicional, acompanhado pela música e interrompido pelo narrador, um homem, talvez a Humanidade, próximo do fim, chamando Deus para uma conversa. Na gravação do próprio Bernstein, o narrador grita, se exalta, pede perdão – e a idéia de uma conversa direta com deus ou com o que ele representa, uma discussão de igual para igual, sem intermediários, aliada ao poder dramático da música sempre me seduziu. E, em suas contradições, a obra foi para mim sempre símbolo do homem Bernstein. Talvez o tom da narração tenha feito com que eu nunca prestasse atenção detalhada ao texto. Há pouco, no entanto, encontrei uma outra gravação da peça, que tem Yehudi Menuhin como narrador (Orquestra da Radio France, Yutaka Sado, Karitta Mattila, selo Warner, gravação de 1999 reeditada em 2008 na coleção Maestro). Com Menuhin, não há gritos, desespero; a voz mantém-se discreta, cuidadosa – a ironia do texto escapa pelas inflexões, pausas, tomadas de fôlego, muito mais forte e perturbadora. E me peguei pensando. É possível prescindir do conflito na crença em Deus? Se somos criados à sua imagem e semelhança, ele não existe senão como prolongamento de nossas angústias, dúvidas, incertezas, encarna e alimenta a nossa contradição? Na sinfonia de Bernstein, a pregação de despedida continuamente cantada pelo coro pode ser a resposta divina – permanente, imutável, a certeza com a qual nossa contradição, nossos desejos, nossa loucura, se choca ao longo da vida. Deus é transcendência ou a busca por ela?

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Uma resposta to “Conversa com deus”

  1. Boa pergunta. Pessoalmente eu diria que Deus é a busca pela transcendência, aquilo que em nós seres humanos é capaz da imortalidade nas pequenas e grandes coisas em que efectivamente transcendemos a nossa natureza mortal.

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