Na semana que vem chega às livrarias a tradução para o português do livro mais recente de Norman Lebrecht, “Maestros, Obras-Primas & Loucura: A Vida Secreta e a Morte Vergonhosa da Indústria da Música Clássica” (Record). O título, traduzido da edição americana, é equivocado – não é a indústria da música clássica que morreu mas, sim, segundo o autor, a indústria de gravações de clássicos. É certo que Lebrecht quer provar que não dá para pensar no mercado musical do século 20 sem concluir que a indústria dos discos foi fundamental em sua construção, alterando e moldando não apenas o repertório mas o tipo de interpretação que dele se espera. Seria possível, então, concluir que, com o fim dos CDs, acabaria o mercado também. Certo? A obra de Lebrecht está repleta de silogismos como esse, que levam a previsões catastróficas mas que, no final das contas, são mais exacerbações, com o objetivo de explorar inúmeras possibilidades de pensamento, que verdades ou previsões absolutas. Se a indústria acabou, a música gravada não parece estar chegando ao fim mas, sim, entrando em outro contexto, outra situação tecnológica. Enfim, logo vou voltar à obra no jornal e falo mais do assunto. Digo só que, colocada essa restrição, o livro é interessante, nos apresenta diversos personagens pouco conhecidos e obscuros do mundo das gravações, além de fornecer números curiosos e impressionantes. Por exemplo: sabe qual o disco mais vendido da história dos clássicos? Callas? Karajan? Três Tenores? Não, é o “Anel” de Georg Solti. Em breve, conversamos mais sobre o tema.

Idéias soltas

maio 27, 2008

O ponto de partida de “Maria Golovin”, ópera de Gian Carlo Menotti apresentada no fim de semana em Manaus, no Festival Amazonas de Ópera, é  perturbador. Na cegueira do personagem Donato e no ciúmes doentio que o consome, há espelhos e projeções. Quando enxergava, ele podia optar por não ver. Agora, privado de visão, não pode mais fechar os olhos. As imagens que o perturbam, no entanto, não estão ali; formas e cores que dão sentido a sons e sensações que, longe do real, são sua única ligação com a realidade. O que é esse mundo real, no entanto? Ou melhor: em que medida ele de fato existe longe da construção diária em que equilibramos verdade, mentira, sentimento, razão e ilusão?

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Estreada em 1958, a ópera não foi um sucesso e caiu em esquecimento até que, recentemente, ganhou nova montagem da Ópera de Marselha, com Nuccia Focile e Paulo Szot como Donato e Maria, essa mulher envolta em mistério, alvo de sua paixão – foi essa a montagem que subiu à cena em Manaus. É de se pensar: o que desagradou tanto ao público da época? Nos anos 50, da vanguarda em plena auto-descoberta, a música de Menotti era politicamente incorreta ao eleger como referência Puccini. Fico em dúvida se a história sombria também colaborou com o esquecimento. É, enfim, cinco décadas depois, o que ela tem de mais interessante.

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O libreto do próprio compositor é rico em imagens. Donato, jovem que perdeu a visão durante a guerra, vive com a mãe e a empregada da família em uma casa de campo; ali chega Maria Golovin com seu filho: esposa de um prisioneiro político, ela aluga um dos quartos da casa. Os dois começam uma história de amor. Há a caracterização de uma sociedade destroçada pela guerra, mas ela é acessória. Os momentos mais ricos são os duetos de Donato e Maria. São eles que, ao longo da trama, nos levam do surgimento da paixão à morte, da densidade à loucura.

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Em determinado momento, um prisioneiro político confronta Donato e sua dor. Enquanto o cego sofre de ciúmes, perde a razão perante a dúvida sobre o amor de Maria, ele vive fugindo, perseguido pela polícia e pela lembrança da mulher e filhos, mortos na sua frente. Qual sofrimento é mais autêntico? A intensidade do sofrimento não pode ser medida longe de seus efeitos. É o espaço que o sofrimento ocupa na mente que define seu tamanho, sua proporção. Donato anseia pela mentira de Maria, só assim terá certeza de que ela não o ama – e é isso que lhe dará a liberdade. Mas a mentira, quando vem, o aproxima ainda mais do fruto de seu desejo; e ele sucumbe perante essa mulher misteriosa. Maria é inocente? No jogo de amor dos dois, não há espaço para a culpa. Há, sim, a noção de certo e errado, que se insinua a todo instante; mas o que sobra para nós é a certeza de que essa oposição não existe. Não, ao menos, de maneira absoluta.

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Donato mata Maria. Não a mata, a mãe o guia no momento do tiro e desvia o filho do alvo, sem que ele perceba. Mas Donato conhece assim o fim de Maria. A morte é simbólica, é o fim para uma relação impossível. Mas o que torna a relação dos dois impossível? Maria o trai? Não sabemos. Ele a trai ao duvidar de todos os seus passos? No seu silêncio, Maria o afasta? O que move esses dois personagens? A relação que constróem tem a medida do significado que o amor tem para cada um. A história que vivem não existe senão como projeção de ambições e desejos individuais. O contato físico, o sexo, é o único momento em que esses dois amores se encontram. Mas o encontro atrapalha, impede que cada um viva seu amor plenamente. Menotti disse que, na tentativa de criar uma história sobre o amor, criou uma ópera sobre ciúmes. No seu texto, porém, os dois são uma só coisa.  

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No fim das contas, o que me pega é a cegueira de Donato. “Quando enxergava, ele podia optar por não ver. Agora, privado de visão, não pode mais fechar os olhos.” Está, enfim, abandonado a seus pensamentos, aos rumores de sua mente. São eles que nos guiam mas também nos afastam do caminho, um caminho ideal que traçamos, ou deixamos que tracem, para nós. De certa forma, encontrar o caminho é abrir mão dele. Encontrar a coerência, é abrir mão dela. O ciúmes, o amor, o ódio – eles nos confundem porque falam um idioma que não entendemos. Falam de sensações, falam de incongruências, incertezas. Falam alto, abafam a razão. Materializam o caos. A sanidade talvez esteja em encontrar nele o sentido. Ou ao menos a ilusão de que ele existe.

Relevância

maio 21, 2008

O “Caderno 2” publicou ontem minha entrevista com o maestro Daniel Barenboim, que rege a Staatskapelle Berlim em São Paulo a partir de domingo em um mini ciclo Bruckner. No post abaixo, eu coloquei uma de suas respostas, como aperitivo. Na entrevista completa, que você acessa aqui, ele fala também da obra de Bruckner e Schoenberg, da questão Israel/Palestina e do papel que a música tem hoje na sociedade. Leiam e me digam o que vocês acham. Para mim, Barenboim é um dos caras mais interessantes do cenário musical. Vocês já viram o site dele? Vale a pena – a seção de ensaios é muito boa, com textos dele sobre os mais variados assuntos. É difícil ver um maestro que se coloque de maneira tão clara e competente a respeito do que se passa mundo afora. E acompanhar seu trabalho, de alguma maneira, é ver como a música pode sim ter um papel mais amplo na vida das pessoas, apesar da perda de relevância das últimas décadas, um dos temas que ele explora na entrevista.

Aspas

maio 19, 2008

Do maestro e pianista Daniel Barenboim, em entrevista hoje de manhã:

“É preciso entender que força não é poder, é um elemento utilizado pelo poder. Quando se está tocando uma sinfonia, força significa perda, restringe a interpretação, retira dela toda nuance. Você percebe o verdadeiro sentido do poder quando todos os instrumentos tocam juntos em uma sinfonia de Bruckner e ninguém se sobressai, todos são ouvidos, dos metais à segunda flauta. É a transparência que dá riqueza, dá poder, força. O mesmo vale para o poder político, ele também precisa surgir da transparência. Força e intensidade são coisas muito diferentes.”

Mais na edição de amanhã do “Caderno 2”. 

Diário do Rio (5)

maio 18, 2008

Após sair da sucursal do Estadão no Rio, desci a Rio Branco para fazer um de meus passeios cariocas preferidos, almoçar no Amarelinho da Cinelândia. Fico, no entanto, sempre com uma sensação incômoda ao observar a degradação da região. Ela tem tudo que se pode querer, o Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional e, mais para baixo, o Cine Odeon. Mas a falta de cuidado transforma a Cinelândia, em especial no fim-de-semana, em uma das mais perigosas regiões da cidade, com você ouvindo, do garçom do restaurante ao segurança do prédio da sucursal, que é bom tomar cuidado e, se puder, evitar fazer qualquer trecho a pé. Sigo insistindo no “erro”, mas fico também pensando como a admnistração pública tem lógicas incompreensíveis.

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Depois de Kathleen Battle e “Fidelio”, vou visitar daqui a pouco a exposição de Jocy de Oliveira no Espaço Oi Futuro, no Catete. Não sei se vou conseguir assistir também à sua nova ópera hoje à noite – precisei adiantar minha volta e parto hoje à noite do Rio, amanhã cedinho preciso estar em São Paulo para a entrevista com o maestro Daniel Barenboim, que chega à cidade com a Staatskapelle Berlim para apresentações na série da Sociedade de Cultura Artística. O próximo post, portanto, já volta a ter sotaque paulistano. Antes, me despeço da paisagem do Rio aqui mesmo no meu hotel, em Botafogo, com uma varanda que dá vista para o Cristo Redentor. É o cartão-postal mais batido e está longe de ser minha paisagem preferida da cidade. Mas, com o céu azul como fundo, e os raios esbranquiçados de sol esfumaçando o Corcovado, aqueles braços abertos são mesmo, de alguma forma incompreensível, a cara dessa terra.

Diário do Rio (4)

maio 18, 2008

Ontem à noite estive no Municipal para assistir “Fidelio”, de Beethoven. Muito já se disse sobre como o compositor sentia-se desconfortável no universo operístico, o que levaria a um resultado desigual e meio desconjuntado em “Fidelio”. Eu mesmo já repeti isso mas, ontem, fiquei menos com essa impressão. O que se deve talvez ao ritmo do espectáculo dirigido por Alberto Renault e regido por Roberto Minczuk. A concepção cênica é muito bonita, abstrata mas repleta de significados, com poucos, mas ricos, elementos, trabalhando com a oposição entre o preto e o vermelho. É inteligente, de bom gosto, e dá fluência à cena – o mesmo vale para a regência de Minczuk. O problema? As vozes. Não todas mas, infelizmente, as mais importantes. Janette Dornellas é uma Leonore/Fidelio apagada, os efeitos, quando a voz cai para o grave, são um pouco desagradáveis e problemas de emissão a tornam inaudível em momentos fundamentais da partitura (no que a orquestra colabora um pouco, é verdade). O Florestan de John Pierce, que foi Tristão na produção de 2003 do Municipal do Rio, sai-se melhor – o timbre escuro se presta bem à cena de abertura do segundo ato mas, no final, ele escorrega ao simular os delírios do personagem, com a voz escapando por tudo quanto é canto, diluindo os efeitos. Mas o elenco trouxe também boas surpresas – o jovem tenor paraense Attala Ayan (Jaquino) merece ter a trajetória acompanhada; Carol MacDavitt foi uma Marzelline encantadora; Sebastião Teixeira saiu-se bem como Pizarro; o grande destaque, cênica e vocalmente, foi o baixo argentino Hernan Iturralde como Rocco, uma voz que corre solta, agradável de ouvir, ao mesmo tempo em que recria a dureza do personagem.

O apelido acima foi dado pela equipe da Sinfônica Brasileira à soprano Kathleen Battle, conhecida pelo temperamento difícil. Comigo, ela foi uma simpatia. A diva, no entanto, aparece nos entornos. Foram dias de negociação para acertar a entrevista – além das mudanças de horário, logo de cara precisei mandar uma série de matérias minhas para que ela avaliasse meu trabalho e decidisse se falaria ou não comigo. Não sei se o fato do pacote incluir entrevistas com amigas delas, como Jessye Norman, ajudou, mas, enfim, o fato é que ontem ela mandou avisar que eu havia passado no teste. Foi marcada então uma conversa para hoje de manhã. Estamos os dois no Rio, mas ela preferiu fazer a entrevista por telefone. Dez minutos, pontualmente às dez da manhã. Se contarmos os intervalos para ela beber água, vai, oito minutos de bate-papo. Pois bem, o que se pergunta em oito minutos de entrevista, já de antemão sabendo que ela não responde questões sobre o “suposto” temperamento difícil ou o veto a seu nome em teatros como o Metropolitan? O repórter sai pela tangente, pergunta sobre o mundo da ópera, a exigência dos contratos, etc; e ela também adota a “saída pela direita”, diz que “é difícil, mas é preciso encontrar sempre tempo para voltar aos estudos, etc”. Bom, falamos também da diversidade de repertório na era da especialização, nos equívocos que ela vê na formação dos cantores líricos, na tradição de intérpretes dos spirituals, na mistura de influências e como é desafio do cantor reuni-las por meio do filtro de sua própria voz e musicalidade. Vou deixar os detalhes para a matéria do “Caderno 2”, que deve ser publicada no começo da semana. Hoje à noite tem “Fidelio”.

Diário do Rio (2)

maio 17, 2008

A soprano norte-americana Kathlenn Battle apresentou-se hoje à noite no Municipal com  Orquestra Sinfônica Brasileira, regência de Roberto Minczuk. Na primeira parte, a sinfonia Londres, de Haydn. Na segunda, a diva. O repertório foi meio esquizofrênico. Começou com a ária “Una Voce Poco Fa”, de “O Barbeiro de Sevilha” e seguiu com “O Mio Babbino Caro”, de “Gianni Schicchi”; a orquestra tocou então “O Trenzinho do Caipira”, de Villa, de quem Battle cantou em seguida a “Melodia Sentimental”. Para completar, “Azulão”, de Jayme Ovalle, uma canção de Granados e três spirituals. Como bis, mais “Azulão”, com participação do Coro Infantil da UFRJ. Bom, e que tal foi? Concertos assim, com grandes artistas já longe de seu auge, colocam sempre, ao menos para mim, um desafio de julgamento. Pensando apenas na noite de hoje, deve-se dizer que a voz já perdeu volume, o fôlego já não é o mesmo, ela demonstra já não ter a agilidade vocal de antes e a voz descolore um pouco ao final das linhas de canto; nas árias de ópera, fica entre uma efusão exagerada de efeitos no Rossini e uma interpretação apática do Puccini; nas demais peças do repertório, a intenção se sobrepõe à técnica. A todo momento, no entanto, uma inflexão, uma construção, parecem trazer de volta ecos do timbre de outra época, da delicadeza, da clareza – e aí é como se o passado fosse um filtro pelo qual a música passa antes de chegar a nós no momento presente. Como ficamos, então? Se vocês tiverem a resposta, agradeço – não sei realmente como fugir ao “longe do auge, ainda guarda em alguns momentos aquilo que fez dela um grande expoente de sua geração”. De qualquer forma, fiquei pensando em como a carreira de Battle teria se encaminhado se não houvesse sido interrompida pelo temperamento que a afastou dos principais palcos do mundo. Essa interrupção matou sua voz que, no entanto, segue viva como uma sombra, uma lembrança do que não foi (ou foi por pouco tempo). Saí do Municipal com um quê de melancolia. Será que há mesmo motivo para isso?

Scandalize my name

maio 16, 2008

Sim, elas também fazem rir. Pesquisando sobre Kathleen Battle, me lembrei de um vídeo, que há muito eu não assistia, em que ela e Jessye Norman interpretam a divertida canção “Scandalize My Name”, de Paul Robeson. Ele está no You Tube e, agora, coloco o link aqui. Norman está impagável.

Diário de leitura (1)

maio 15, 2008

“… Anos de solidão haviam lhe ensinado  que os dias, na memória, tendem a ser iguais, mas que não há um só dia, nem sequer de prisão ou de hospital, que não traga surpresas. (…) Em dias distantes, menos distantes pelo transcurso do tempo que por dois ou três  fatos irrevogáveis, desejara muitas coisas, com amor sem escrúpulo; essa vontade poderosa, movida pelo ódio dos homens e pelo amor  de uma mulher, já não queria coisas particulares: queria apenas perdurar, não ter fim. (…) …procurava viver no puro presente, sem lembranças nem previsões; as primeiras tinham menos importância para ele que as últimas. Julgou intuir, obscuramente, que o passado é a substância de que é feito o tempo; por isso é que este se torna passado imediatamente.”  (“A Espera”,  Jorge Luis Borges)