Diário do Rio (2)

Maio 17, 2008

A soprano norte-americana Kathlenn Battle apresentou-se hoje à noite no Municipal com  Orquestra Sinfônica Brasileira, regência de Roberto Minczuk. Na primeira parte, a sinfonia Londres, de Haydn. Na segunda, a diva. O repertório foi meio esquizofrênico. Começou com a ária “Una Voce Poco Fa”, de “O Barbeiro de Sevilha” e seguiu com “O Mio Babbino Caro”, de “Gianni Schicchi”; a orquestra tocou então “O Trenzinho do Caipira”, de Villa, de quem Battle cantou em seguida a “Melodia Sentimental”. Para completar, “Azulão”, de Jayme Ovalle, uma canção de Granados e três spirituals. Como bis, mais “Azulão”, com participação do Coro Infantil da UFRJ. Bom, e que tal foi? Concertos assim, com grandes artistas já longe de seu auge, colocam sempre, ao menos para mim, um desafio de julgamento. Pensando apenas na noite de hoje, deve-se dizer que a voz já perdeu volume, o fôlego já não é o mesmo, ela demonstra já não ter a agilidade vocal de antes e a voz descolore um pouco ao final das linhas de canto; nas árias de ópera, fica entre uma efusão exagerada de efeitos no Rossini e uma interpretação apática do Puccini; nas demais peças do repertório, a intenção se sobrepõe à técnica. A todo momento, no entanto, uma inflexão, uma construção, parecem trazer de volta ecos do timbre de outra época, da delicadeza, da clareza – e aí é como se o passado fosse um filtro pelo qual a música passa antes de chegar a nós no momento presente. Como ficamos, então? Se vocês tiverem a resposta, agradeço – não sei realmente como fugir ao “longe do auge, ainda guarda em alguns momentos aquilo que fez dela um grande expoente de sua geração”. De qualquer forma, fiquei pensando em como a carreira de Battle teria se encaminhado se não houvesse sido interrompida pelo temperamento que a afastou dos principais palcos do mundo. Essa interrupção matou sua voz que, no entanto, segue viva como uma sombra, uma lembrança do que não foi (ou foi por pouco tempo). Saí do Municipal com um quê de melancolia. Será que há mesmo motivo para isso?

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